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A única coisa certa da vida é que um dia iremos morrer?
Com certeza pode ser um tanto pessimista ou desesperançada tal afirmação, contudo esta é uma realidade que todos nós enfrentaremos em um determinado momento. Um dia sofreremos a dor de perder alguém do nosso círculo familiar, um amigo ou pessoa achegada.
Na nossa cultura ocidental não é comum falarmos sobre o assunto. Não temos o costume de abordarmos o assunto mais certo e definitivo da vida. Assim quando este fato acontece, além do torpor emocional causado pela dor e que todos nós passaremos é comum vermos que não havia nenhum cuidado por parte do falecido em questão de documentação ou previsão quanto à situação.
Comentaremos, hoje somente, sobre o luto e o processo da dor.
O luto é o sentimento causado pela dor profunda oriunda da morte de alguém, então, estaremos sempre nos referindo ao luto como dor pessoal e não com o processo social a que comumente também chamamos de luto.
Neste período ocorrem situações em que a pessoa age de forma não usual: alguns se isolam, outros vivem chorando, outros não querem mais voltar para a casa onde conviveram com a pessoa falecida.
Este tempo é carregado por diversas emoções que podem levar o enlutado a chorar, se lastimar, se auto-acusar, revoltas, mágoas, raiva entre outros sentimentos. Ocorre logo após o conhecimento do falecimento e pode se estender por períodos que variam de pessoa para pessoa, assim como de situação e circunstâncias. Ou seja, a reação a uma morte acontecida em um acidente é diferente daquela que a pessoa se achava enfermo, assim como o grau de proximidade afetiva – e não necessariamente de parentesco. Idade, grau de centralidade familiar são outros fatores que podem pesar no luto.
Como cada um de nós traz em si uma carga de amadurecimento e forma de encarar a realidade de formas diferentes, o tempo em que a pessoa permanece enlutada também varia de indivíduo para indivíduo.
A realidade começa a mostrar sua face cruel no velório, quando a pessoa acorda do seu estado embotado e a dor se manifesta com maior força. Logo vem o momento do sepultamento. Este momento é de profunda comoção, é o momento da despedida final, é a separação concreta. É doloroso, mas fugir dele pode ser pior, porém, caso a pessoa não queira ir ao velório ou sepultamento não se deve insistir ou no caso de menores, obrigá-los. Deve-se respeitar os sentimentos.
Após este período de fragilidade emocional, a pessoa pode se tornar agitada e entrar num falso dinamismo, podendo passar a ter cuidado excessivos com a casa, manutenção do automóvel ou outro motivo qualquer que a mantenha ocupada de tal forma que a impeça de se lembrar do fato. Outros transtornos podem ocorrer como perda do sono, falta de apetite ou mesmo o apetite descontrolado, sono agitado, a indolência também pode se manifestar, assim como o descuido pessoal e a tendência a vícios, mudanças inexplicáveis de humor, agressividade. Tais reações podem deixar os familiares atordoados, impacientes ou irritados diante deste novo perfil emocional.
Ainda neste período, a pessoa começa a fazer uma retrospectiva de seu relacionamento com a pessoa falecida. Começa a pensar no que poderia ter feito, ter dito, nas vezes que foi injusta ou dura com ela. Geralmente sempre se lembrando das ocasiões em que o outro foi a vítima. Isto pode gerar um sentimento de culpa, levando a pessoa a se castigar mentalmente e cair em depressão.
Embora tais sentimentos confusos e desconexos sejam comuns e normais em tais situações, é importante que parentes e amigos estejam por perto para dar assistência, não necessariamente com palavras de ânimo ou fórmulas para levantar o astral, mas estar perto (não necessariamente junto) e deixar claro sua disponibilidade em ajudar. Caso o enlutado tenha caído em depressão e tenha se isolado, evitando o convívio, o contato com outras pessoas, respeite, permitindo tais momentos, mas não deixe de se aproximar para evitar que haja longos isolamentos. Isto ajudará a pessoa a voltar mais rapidamente à nova normalidade.
Tem que ter paciência com a pessoa. Ela poderá transformar a pessoa falecida como tema principal, precisará de um ombro para chorar, alguém com quem falar. As datas especiais, noivado, casamento, aniversário entre outras poderão fazer a pessoa sofrer recaídas, principalmente nos primeiros anos pós-luto. Evite marcar casamento ou outra data construída (datas que podemos escolher), em datas especiais como aniversários, natal entre outras, pois a data invocará uma dupla lembrança e com maior intensidade emocional.
Com o passar do tempo, normalmente, a pessoa começa a voltar a sua rotina de vida, aos projetos antigos e retomando a vida que ficou em “pausa” durante o período do luto. Isto não quer dizer que tudo será como antes, em toda a plenitude da palavra, mas uma normalidade bem próxima. Haverá uma cicatriz emocional que embora não doa mais, atesta para uma perda a qual não será substituída. Convém lembrar que as pessoas que professam uma religião, o cristianismo por excelência, conseguem administrar melhor tal situação e recuperarem-se melhor e com mais rapidez.
Ignorar a morte pode ser um conviver eterno com uma dolorosa e angustiante memória viva, uma ferida que não se cicatriza, uma dor que não passa. Fugir disto é fugir de si, é não mais viver, é morrer junto e continuar vivo.
Caso a pessoa continue em tal estado, convém buscar ajuda de um profissional, um psicólogo poderá prestar bom serviço e auxiliar na recuperação.
Fonte: Péricles Ramos é filósofo e palestrante sobre relacionamentos familiares.
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